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No Mês da Mulher, desejo a libertação das neuroses nutricionais inúteis

Aposto que a maioria das mulheres que você conhece já fez ou vive fazendo dieta. E não há nada mais sufocante do que viver pensando no que não se deve ou não se pode comer.

Não pode, não faz bem, não é saudável, é veneno, dá câncer. Como o patrulhamento da comida é chato! Tornou algo tão simples na coisa mais complexa do mundo. Tão difícil a ponto de as pessoas me perguntarem “O que é bom eu comer? Qual o melhor horário para comer? Posso comer isso?” A minha resposta é tão simples que assusta: sim, pode comer tudo o que quiser, nada faz mal, nenhum alimento é proibido. E aquela interrogação enorme fica estampada na cara da pessoa, pensando que eu sou louca. Louco é quem acredita que existe comida certa e errada, e fica sofrendo por não poder comer o que acha errado. E, quando come, é um exagero sem fim e uma culpa danada. Se tudo fosse certo, provavelmente não haveriam exageros. Você já viu alguém tendo uma síncope alimentar por milho cozido, salada de frutas ou frango grelhado?

Comer deveria ser tão natural e intuitivo quanto dormir, se movimentar e urinar. É uma necessidade biológica essencial para vivermos, mas ainda assim alguns experts pregam o ‘não comer’ como a solução para viver mais e melhor. Não comer, comer menos do que o necessário, ou comer só determinados alimentos, é mais ou menos como dormir 1 hora por noite, ficar o tempo todo parado sem se mover, ou urinar apenas uma vez por dia. Quem tem muita disciplina, autocontrole e #focoforçafé até consegue fazer tudo isso, mas provavelmente por um curto período de tempo e com efeitos colaterais terríveis. Imagine se você não ficaria assonado e com dificuldade de fazer atividades simples do dia a dia, se os seus músculos não ficariam atrofiados ou se você não teria uma bela infecção urinária, fora o desconforto. Quem já passou por essas situações sabe o quanto é ruim, mas quando o assunto é comida, a privação parece algo absolutamente normal, e não conseguir sustentá-la é falta de vergonha na cara, disciplina e autocontrole.

Acontece que a privação alimentar movimenta um mercado gigantesco de produtos, cursos, medicamentos e tratamentos que prometem a solução definitiva para comer menos. Só que como é biologicamente impossível comer pouco por um grande período de tempo, a impressão que temos é que somos todos indisciplinados e sem força de vontade, especialmente quando em paralelo há um outro mercado gigantesco que nos induz a comer mais, mais e mais. Então a responsabilidade do fracasso é puramente individual, principalmente quando tem aquele camarada que consegue ter esse autocontrole (e provavelmente tem mesmo) e nos achamos incapazes de comer certo. Nossa tendência é ser cruel com nós mesmos. É raro confiarmos que podemos ser muito bons em comer simplesmente seguindo o nosso instinto interno da fome, saciedade e satisfação, e filtrando os estímulos visuais, olfativos, sociais e emocionais que nos fazem comer além da conta. Por isso, é preciso recorrer a um controle externo – dieta, produtos, remédios, suplementos, shakes, profissionais de saúde e charlatões. É incrível como não cultivamos e perdemos a capacidade de decidir coisas simples do instinto humano, e precisamos de soluções de fora para resolvê-las. Um bebê recém-nascido sabe exatamente a hora de comer, dormir, se movimentar, urinar e se espreguiçar. Ele apenas vive e age de acordo com o que o corpo diz para ele naquele momento. Quando esse bebê cresce um pouquinho, começa a ter que se encaixar nos padrões do mundo adulto e passa a ter hora para tudo, mesmo que aquela não seja a hora natural para ele comer, dormir ou brincar. E, junto com isso, são criados os significados que a comida tem para ele. Muitos de nós crescemos ouvindo que é pecado deixar comida no prato, então comemos tudo, mesmo quando já estamos cheios. Eu ouvia que para crescer precisava comer feijão e salada, e durante muito tempo eu não comi feijão nem salada só porque era uma obrigação (demorei para conseguir apreciar esses alimentos de verdade).

As meninas de hoje em dia ouvem muito mais do eu ouvi na minha infância que é feio ser gorda, chocolate engorda, refrigerante dá celulite, lactose faz mal, não pode comer glúten, e de forma não intencional acabam absorvendo as neuras nutricionais das mulheres adultas que as cercam. Já atendi uma menina de 10 anos preocupada porque seu Índice de Massa Corporal estava fora do ideal (oi?), e uma outra de 11 anos que queria emagrecer para a festa do Bat Mitzvah – na verdade os pais queriam que ela emagrecesse para ficar bem no vestido, e ela incorporou esse desejo. Essa garota em especial me lembrou muito a personagem do filme Little Miss Sunshine (Fox Searchlight Pictures, 2006), uma menina doce, feliz e espontânea, com seus óculos de lentes grossas, cabelos compridos amarrados com lacinhos e uma barriguinha saliente que não trazia nenhum problema de saúde e que predizia o estirão de crescimento que estava por vir. Mas toda essa inocência estava sendo podada de forma silenciosa pelos próprios pais, por razões que interessavam mais a eles do que a ela.  Essas meninas tornam-se as mulheres que vêm ao consultório completamente confusas e inseguras sobre a sua relação com o corpo e com a comida.

O que desejo hoje, é que as mulheres que vivem nessa prisão consigam se libertar das regras alheias e das próprias regras alimentares que criaram, e busquem uma relação mais harmônica e intuitiva consigo mesmas e com a comida. É altamente libertador. Você já teve essa experiência? Compartilhe nos comentários e encoraje outras mulheres a seguirem o mesmo caminho!

Dicas para acelerar a mudança de mindset:

Netflix – Mini doc Explained: why diets fail

Livro O Peso das Dietas, da nutricionista Sophie Deram (editora Sextante)

Foto de Lia Buschinelli
Sobre o autor
Lia Buschinelli é nutricionista, e acredita na transformação da relação com a comida como ferramenta para alcançar a alimentação saudável e sustentável. Preza pela nutrição humanizada, atualizada e com tato.
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