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Como é a sua relação com a comida?

O significado e as expectativas que colocamos sobre o que comemos diz muito sobre a forma como nos relacionamos com a comida. Vamos pensar sobre como o mundo conspira para a nossa insatisfação corporal?

  1. A pergunta que não quer calar: “O que você faria com 5 kg a menos?”. Eu diria: nada que não faria hoje, mas talvez poderia economizar um pouco e passar a comprar roupas na seção infantil.
  2. Somos intimados: “Você tem que emagrecer! Senão você terá diversas doenças!” – diabetes, hipertensão arterial, doenças do coração, câncer, etc. Assustador! Mas isso implica em fazer dieta, e como não consigo, acho que todas as profecias vão se concretizar.
  3. Há alguns anos a moda era ter o “corpo de rã”, no estilo Madonna (veja reportagem). Depois foi ter as pernas tão finas, a ponto de ficar um espaço vazio entre as coxas, mesmo encostando uma na outra. Alguém troca de corpo como troca de roupa?
  4. Praticamente toda publicidade que contêm imagens de seres vivos são “corrigidos” no Photoshop. Seja uma mulher anunciando um produto de beleza, um homem ao lado de um carro, uma criança no parque de diversões, um cachorro no pet shop ou uma flor decorando o lançamento imobiliário. O mundo da propaganda propaga a perfeição, em todos os quesitos da nossa vida. É óbvio que o mundo real não é perfeito como o mundo do Photoshop, mas somos induzidos a acreditar que sim.
  5. A cultura das aparências valoriza a beleza, que deixou de ser uma característica para se tornar um produto. É possível comprá-la em parcelas a perder de vista nas prateleiras das farmácias, supermercados, cabeleireiros, clínicas de estética, mesas de cirurgia plástica, academias e lojas de roupas.
  6. A cultura das aparências, consumismo e praticidade, vende a beleza como um produto e a insatisfação corporal como uma forma de perpetuar essa mentalidade. Gera um círculo vicioso de insatisfação e consumo de produtos que prometem milagres –> resultados pífios –> insatisfação corporal –> consumo de novos produtos que prometem milagres –>  resultados pífios –> insatisfação corporal…  e assim vai até você se dar conta do buraco onde entrou. Ou achar que tudo isso é normal, o que é ainda pior.

O que tentei mostrar com estes exemplos, é que o mundo de fato conspira para a nossa insatisfação corporal, mesmo que sem justificativa e fundamento, pois isso impulsiona o consumo absurdo de produtos e serviços que surgem a cada dia com a promessa de resolver o entrave à sua felicidade. Infelizmente, junto com isso surgem também pensamentos e crenças alimentares distorcidos e exagerados, que ao invés de ajudar a solucionar os problemas, causam ainda mais confusão, angústia e desinformação. A meu ver, estamos mesmo no caminho errado:

  1. Taxar alimentos de bons ou ruins. Vemos até nutricionistas enaltecendo este tipo de divisão entre os alimentos, como se comer 10 pés de alface por dia fosse bom para a saúde, ao passo que comer 1 bombom de chocolate fosse ruim. Não existem alimentos bons e ruins, permitidos e proibidos. Tudo depende da quantidade e do momento em que são consumidos. Levar uma marmita de salada para uma feijoada porque você está de dieta é no mínimo bizarro, enquanto que beber refrigerante num almoço de terça-feira pode ser algo sem propósito.
  2. Achar que a indústria de alimentos cozinha melhor do que você. Nenhuma máquina ou sistema de produção é capaz de preparar uma refeição melhor e mais nutritiva do que você mesmo. Portanto, quando a embalagem destaca que o alimento é rico em vitaminas e minerais, é porque provavelmente ele foi tão processado que os componentes naturais foram destruídos, e a forma de melhorá-lo um pouco foi adicionando os mesmos compostos artificialmente.
  3. Acreditar que temos o poder de enganar a fome. A fome é absolutamente normal, essencial à sobrevivência e fará parte da sua vida para sempre. Portanto, acreditar ser capaz de enganá-la é uma perigosa ilusão. Seria o mesmo que pensar que somos capazes de ficar sem dormir, ser urinar ou sem beber água.
  4. Sucumbir às promessas dos alimentos poderosos. NENHUM alimento é capaz de emagrecer ninguém. A ideia que temos desse conceito, é que ao ingerir o tal alimento, ele é direcionado diretamente àquele pneuzinho de gordura que você detesta, que será dissolvido pelo alimento e eliminado de alguma forma. Como, evaporando? Pela urina? Quando se fala que o alimento emagrece, na verdade ele provavelmente promove uma saciedade no estômago, levando você a comer menos de outros alimentos possivelmente mais calóricos. Porém, se como por ansiedade, tristeza, felicidade ou qualquer outro sentimento, tanto faz se o meu estômago está cheio ou vazio, pois a comida nesse caso está preenchendo a minha alma e o meu coração, não a minha barriga.
  5. Colocar o valor nutricional dos alimentos como o fator mais importante no seu consumo. O valor nutricional é somente um dos itens a serem considerados. Imagine um alimento considerado uma boa fonte de proteínas, pobre em gorduras, rico em vitaminas e minerais, que promove saciedade (e que, portanto, teria o suposto “poder emagrecedor”). Parece um alimento excelente do ponto de vista nutricional, então vamos introduzi-lo na alimentação das pessoas! E se eu disser que este alimento é um inseto¿ Para algumas populações isso faz muito sentido, porém para a maioria de nós, certamente não. Além do valor nutricional, é preciso levar em conta os hábitos, cultura local, disponibilidade, custo, acesso, forma de preparo e forma de consumo.

Percebo que boa parte de nós mudou a forma de encarar a comida de alguns anos para cá, e para pior. O advento das pesquisas, medicina, recursos e todas as tecnologias disponíveis, ao invés de melhorar a nossa relação com a comida, tornou-a um problema, motivo de ansiedade e frustração, ao mesmo tempo que a cultura das aparências, consumo e praticidade nos impõe pensamentos e comportamentos antagônicos e contraditórios.

Assim fica difícil manter uma alimentação adequada, não? Deixo a sugestão do jornalista Michael Pollan, que em seu livro Regras da Comida, alerta: “Não coma nada que a sua avó não reconheça como comida”. As avós de antigamente, pelo menos. As avós do futuro eu já não garanto.

Foto de Lia Buschinelli
Sobre o autor
Lia Buschinelli é nutricionista, e acredita na transformação da relação com a comida como ferramenta para alcançar a alimentação saudável e sustentável. Preza pela nutrição humanizada, atualizada e com tato.
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