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Atendimento nutricional à distância: mas Dra., dá para atender sem me pesar?

Essa é uma pergunta bem interessante que tenho ouvido de alguns pacientes e candidatos a paciente nesse período de isolamento social. Afinal, o peso é o resultado concreto do sucesso (ou do insucesso) do acompanhamento nutricional, certo? Não é bem assim.

Quem acompanha comigo entende não considero peso, percentual de gordura e massa magra os principais parâmetros de resultado, mas são os mais difundidos, talvez por serem objetivos e pragmáticos. Se eu comer “certo”, o número cai, se eu comer “errado”, o número sobe. Muitos se espantam quando proponho uma abordagem sem a famigerada pesagem. Como assim? Como saberei se estou fazendo certo? Não dá! Dá sim! A minha pergunta é: se não existisse balança, nem tamanho de calça, nem bioimpedância, como você saberia se está se alimentando melhor ou não?

Curioso é colocar todo o sucesso do processo de mudança alimentar em referências externas ao seu corpo. Balança, roupa, espelho, fotos, são todas referências que estão fora de você. Por isso, a minha proposta é olhar para dentro. Quais sinais internos você percebe quando se alimenta mal? E quando se alimenta bem? Podemos pensar em funcionamento intestinal, disposição, energia, imunidade, desempenho nos exercícios físicos, capacidade de concentração e foco, presença ou ausência de sintomas gástricos como azia, refluxo, empachamento, sonolência após as refeições… se isso representar uma mudança numérica na balança, é apenas uma consequência. Números são exatos, nosso corpo não é.

Há cerca de 1 ano um candidato a paciente me procurou para entender a minha forma de trabalhar o emagrecimento, já que não prescrevo dietas. Fizemos a primeira consulta presencial, e poucos dias depois ele estava embarcando em uma viagem internacional que levaria vários meses, então ao longo desse período fizemos todo o acompanhamento à distância, totalizando 6 meses e 13 encontros, sendo apenas o primeiro e último presenciais. O desafio inicial foi propor que ele não se pesasse, justamente para tirar o foco do externo e prestar atenção no interno. Apesar do estranhamento, ele topou.

O segundo desafio foi propor o preenchimento de um diário alimentar, mas não daqueles tradicionais onde a pessoa anota o que come e quanto come, com receio do que o nutricionista vai dizer quando olhar. Um diário mais detalhado, onde o que se come e quanto são apenas reflexos do nível de fome, da situação social (estou trabalhando em casa, no escritório, estou numa festa, na casa de alguém), da companhia (estou só, estou num grupo), dos pensamentos e sentimentos (preciso comer tudo antes que acabe, estou apenas com fome e quero comer rápido para voltar ao trabalho, me sinto ansioso, preciso de um doce, e rápido!). O grande lance é conectar todos esses pontos para entender porque estou comendo tudo isso, só isso, ou nada disso. As nossas escolhas alimentares têm um componente fortemente cultural, social e afetivo. As abordagens nutricionais tradicionais enxergam apenas o componente racional e biológico, que não satisfazem as outras, e, portanto, se tornam monótonas e insustentáveis. Como convencer o paciente a comer gelatina diet quando ele está com desejo de doce de leite? É ingênuo acreditar que isso funciona de verdade. Melhor ajudá-lo a entender esse desejo, e satisfazê-lo de forma tranquila e positiva. Sem culpa, sem remorso e sem contar calorias.

O diário é a ferramenta mais poderosa que o paciente pode utilizar. Mas pode ser mais difícil do que seguir uma dieta, comer só frango com salada e cortar o carboidrato. Exige coragem para encarar e compartilhar aspectos bastante íntimos e pessoais sobre comida. É uma maneira de transferir para o externo algo que é interno, e quanto mais isso se materializa, mais esclarece uma série de padrões e crenças alimentares que não são visíveis, mas que guiam nossas escolhas alimentares de forma silenciosa. Quem nunca se recusou a deixar comida no prato, mesmo estando satisfeito, porque sempre ouviu que isso é um pecado? Quem nunca comeu o pacote inteiro de bolachas com medo de alguém comer antes de você e acabar com tudo? Quem nunca ficou pensando na comida que será servida na festa do sábado, quando ainda é terça-feira? Essas perguntas dizem muito sobre como a pessoa pensa e age em relação à comida. É um trabalho muito mais mental do que físico, por isso que os números deixam de ser tão relevantes.

O interessante desse paciente, é que nas primeiras sessões ele referia uma certa insegurança de não ter certeza de que estava fazendo a coisa certa. Como assim, posso comer o que eu quiser? Engraçado como dar liberdade e autonomia para que as pessoas façam suas escolhas alimentares baseadas nas suas próprias necessidades é algo que assusta. Não seria estranho eu dizer que, para ter um sono melhor, daqui em diante você deverá dormir todos os dias das 23:00 às 05:00, sem poder cochilar, tendo apenas 1 dia da semana livre para dormir e acordar a hora que quiser, contanto que siga a prescrição à risca nos demais. Se sentir sono ao longo do dia, não durma, saia para correr para despertar o corpo. Se tiver algum compromisso após as 21:00, desmarque, ou agende para o seu dia livre. Se não sentir sono as 23:00, deite-se mesmo assim e fique na cama até dormir. Isso soa bizarro? Mas é exatamente isso que as dietas fazem: impõem uma série de regras que podem até fazer sentido do ponto de vista biológico, mas que transferem um controle interno (fome, sede, saciedade, satisfação) para uma regra externa que alguém colocou como verdade absoluta, e quem não seguir está fadado ao fracasso.

Um outro grande lance é fazer a pessoa de fato ter contato e compreender quais são suas próprias necessidades reais, e não as que ela acha que são reais. Ninguém tem a necessidade real constante de comer demais o tempo todo. Um dizer interessante que esse paciente mencionou em uma ocasião foi: “não me violentei”, quando se referiu a uma situação em que comeu o suficiente para se sentir saciado e confortável, sem se sentir empachado. Entender que o exagero é uma forma de violência é algo poderoso e transformador. Depois desse dia, naturalmente ele passou a comer menos, a dividir pratos, a não comer tudo até o final. “O tudo não te faz feliz, o que te faz feliz é algo”. Apelidamos essa retomada do controle interno do apetite de “termômetro da fome e saciedade”.  Aceleradores desse processo são as tarefas de casa, como leituras, vídeos, exercícios para comer de forma diferente. O que não exclui, obviamente, trabalhar diretrizes básicas de alimentação saudável, mas sem o caráter negativo e impositivo; a comida deve ser somente positiva.

Trabalhar com parâmetros de resultado subjetivos é infinitamente mais sustentável, autêntico, respeitoso e benéfico do que insistir nos velhos números e na balança. Para isso, é preciso estar disposto a mergulhar no padrão alimentar, dedicar tempo e energia para absorver e vivenciar uma forma diferente de comer que não tem volta. No final das contas esse paciente come de tudo, cozinha mais, consome mais frutas e hortaliças, fica satisfeito com menos comida, perdeu peso e o mantém sem fazer esforço. Se você estiver pronto, adoraria participar. Se não, amadureça a ideia e estarei aqui quando chegar a hora. Se não sabe, comente aqui, ou mande uma mensagem para trocarmos uma ideia. Não precisa ser no consultório, apesar de adorar conversar pessoalmente. Pode ser por telefone, ou aplicativos de conversa remota.

Observação: considerando a necessidade de isolamento social, o Conselho Federal de Nutrição, através da Resolução CFN nº 646, de 18 de março de 2020, liberou o atendimento nutricional à distância, inclusive a 1ª consulta, até o dia 31 de agosto de 2020.

Foto de Lia Buschinelli
Sobre o autor
Lia Buschinelli é nutricionista, e acredita na transformação da relação com a comida como ferramenta para alcançar a alimentação saudável e sustentável. Preza pela nutrição humanizada, atualizada e com tato.
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